Um projeto elétrico residencial envolve muito mais do que espalhar tomadas pela planta: cada cômodo tem uma quantidade mínima de pontos, cada ponto tem uma potência mínima, os circuitos precisam ser separados por função e os condutores dimensionados para a corrente de projeto. Tudo isso está na ABNT NBR 5410. Neste guia mostramos, tela por tela, como fazer esse projeto na ferramenta de projetos elétricos do Amigo Eletricista — e, em cada etapa, qual exigência da norma está sendo atendida.
O que a NBR 5410 exige de um projeto residencial
Antes de abrir a ferramenta, vale conhecer as regras que ela aplica. A seção 9.5 da NBR 5410 traz prescrições específicas para locais de habitação. Os principais pontos são:
1. Iluminação
- Em cada cômodo ou dependência deve existir pelo menos um ponto de luz fixo no teto, comandado por interruptor (item 9.5.2.1.1). Em espaços pequenos como lavabos, despensas e áreas sob escada, admite-se o ponto na parede.
- Carga mínima de iluminação (item 9.5.2.1.2): 100 VA para cômodos de até 6 m²; acima disso, 100 VA para os primeiros 6 m² mais 60 VA a cada 4 m² inteiros.
Fonte: ABNT NBR 5410:2004, itens 9.5.2.1.1 e 9.5.2.1.2.
2. Quantidade de tomadas (TUG)
| Cômodo | Mínimo de pontos de tomada |
|---|---|
| Banheiro | 1 ponto, próximo ao lavatório |
| Cozinha, copa, área de serviço, lavanderia | 1 ponto a cada 3,5 m (ou fração) de perímetro; 2 tomadas acima da bancada da pia |
| Varanda | 1 ponto |
| Sala e dormitório | 1 ponto a cada 5 m (ou fração) de perímetro, espaçados uniformemente |
| Demais cômodos até 6 m² | 1 ponto |
| Demais cômodos acima de 6 m² | 1 ponto a cada 5 m (ou fração) de perímetro |
Fonte: ABNT NBR 5410:2004, item 9.5.2.2.1.
3. Potência mínima das tomadas
- Banheiros, cozinhas, copas, áreas de serviço e lavanderias: 600 VA por ponto até três pontos e 100 VA para os excedentes, considerando cada ambiente separadamente. Se o conjunto desses ambientes tiver mais de seis pontos, admite-se 600 VA até dois pontos.
- Demais cômodos: no mínimo 100 VA por ponto de tomada.
Fonte: ABNT NBR 5410:2004, item 9.5.2.2.2.
4. Divisão dos circuitos
- Iluminação e tomadas devem ficar em circuitos distintos (item 4.2.5.5). Em residências, admite-se circuito misto desde que a corrente de projeto não passe de 16 A e que nem toda a iluminação nem todas as tomadas fiquem num único circuito (item 9.5.3.3).
- Todo equipamento com corrente nominal acima de 10 A (chuveiro, ar-condicionado, forno etc.) deve ter circuito independente (item 9.5.3.1).
- As tomadas de cozinhas, copas, áreas de serviço e lavanderias devem ter circuitos exclusivos desses locais (item 9.5.3.2).
- As cargas devem ser distribuídas entre as fases buscando o maior equilíbrio possível (item 4.2.5.6).
5. Proteção e condutores
- DR de 30 mA é obrigatório nos circuitos de banheiros, áreas externas, cozinhas, lavanderias, áreas de serviço, garagens e demais áreas molhadas (item 5.1.3.2.2).
- Seção mínima do condutor de cobre: 1,5 mm² para iluminação e 2,5 mm² para circuitos de força — tomadas contam como força (tabela 47).
- Queda de tensão máxima de 5% a partir do ponto de entrega, quando o fornecimento é em baixa tensão (item 6.2.7.1). Veja como calcular no artigo sobre queda de tensão.
- Eletrodutos com taxa de ocupação de no máximo 40% para três ou mais condutores (item 6.2.11.1.6).
- Quadro de distribuição com espaço de reserva: 2 circuitos para até 6; 3 para 7 a 12; 4 para 13 a 30 (tabela 59).
Fonte: ABNT NBR 5410:2004, itens 4.2.5.5, 4.2.5.6, 5.1.3.2.2, 6.2.6.1.1, 6.2.7.1, 6.2.11.1.6, 6.5.4.7 e 9.5.3.
Fazer tudo isso à mão, cômodo por cômodo, é onde a maior parte do tempo de um projeto vai embora. A ferramenta automatiza essas contas — e você continua no controle para ajustar o que quiser.
Passo 1 — Criar o projeto e enviar a planta em DXF
Na sua área de usuário, abra Projetos elétricos → Novo projeto. Preencha o nome do projeto, o nome do(a) cliente, o tipo de projeto e a quantidade de pavimentos, e envie o arquivo DXF da planta baixa (o formato que AutoCAD, LibreCAD e a maioria dos programas de arquitetura exportam). Depois é só clicar em Abrir na lista de Meus projetos.
Antes de começar, vale passar em Configurações: lá ficam os valores padrão usados em todos os projetos, como altura dos cômodos, tensão da rede, diâmetro mínimo e máximo de eletroduto, altura da caixa de disjuntores, potência e altura padrão das tomadas.
Quer ver funcionando sem criar conta? Na página inicial existe o Teste Agora: basta soltar um arquivo .dxf.
Conhecendo a tela de desenho
A tela de desenho tem três barras: os comandos principais e os símbolos no topo, a navegação à direita e as opções de seleção e edição embaixo.
Barra superior — os 5 comandos principais
A primeira linha segue a ordem natural do projeto:
- Autoseleção — lê a planta e identifica os cômodos automaticamente.
- Distribuir — posiciona tomadas e pontos de luz em cada cômodo seguindo a NBR 5410.
- Ligação — liga os pontos elétricos às caixas com eletrodutos.
- Cargas — abre o quadro de cargas com circuitos, cômodos, pontos e objetos.
- Exportar — gera o PDF com desenho, lista de materiais e relatórios.
Os símbolos elétricos
| Ícone | Botão | Para que serve |
|---|---|---|
| Seleção | Desenha um cômodo clicando canto a canto (mínimo de 3 pontos). Enter finaliza e calcula área e perímetro; Esc cancela. Útil quando a Autoseleção não pega um cômodo de formato irregular. | |
| Eletroduto | Liga dois símbolos elétricos. Variações: aparente ou enterrado. | |
| Caixa octogonal | Insere uma caixa de passagem no ponto clicado. | |
| Iluminação | Ponto de luz de teto ou de parede. | |
| Interruptor | Simples, duplo ou triplo — sempre sobre uma parede. | |
| TUG | Tomada de uso geral, em altura baixa, média ou alta. | |
| TUE | Tomada de uso específico: você escolhe o equipamento (chuveiro, ar-condicionado…) e a potência vem do cadastro. | |
| CD | Caixa de disjuntores (quadro de distribuição), embutida ou de sobrepor. | |
| Circuitos | Linha de chamada para anotar uma observação ou a identificação dos circuitos no desenho. | |
| Mover | Reposiciona um objeto já colocado. |
Para cancelar qualquer comando, aperte Esc.
Barra lateral e barra inferior
- Medir — clique em dois pontos e veja a distância entre eles.
- Canto e Linha — ligam o “imã” do cursor: com Canto, o clique gruda nas extremidades das linhas; com Linha, em qualquer ponto da parede.
- Marcar — destaca os cômodos já selecionados, para você ver o que falta.
- Cotas — mostra as cotas no desenho.
- Novo Cômodo — desenha um retângulo livre que vira cômodo.
- Editar Cômodo — clique num cômodo pronto para reabrir o cadastro dele.
- Porta e Janela — adicionam esquadrias sobre uma parede existente (a distribuição evita colocar tomada no vão).
Passo 2 — Identificar os cômodos
Clique em Autoseleção para a ferramenta reconhecer os cômodos da planta. Se algum ficar de fora — por exemplo, um cômodo em L ou um DXF com linhas soltas —, use o botão Seleção ou o Novo Cômodo para desenhá-lo.
Cada cômodo abre o Cadastro Cômodo. É aqui que entra a NBR 5410: o tipo de cômodo, a área e o perímetro definem quantas tomadas e quanta carga de iluminação o cômodo precisa. Por isso, escolha o tipo correto (dormitório, banheiro, cozinha, área de serviço, varanda, lavabo…).
Passo 3 — Posicionar a caixa de disjuntores
Use o botão CD para colocar o quadro de distribuição na parede. No cadastro dele você informa o método de instalação, a distância até a medição (usada no dimensionamento do circuito de alimentação) e o modelo do quadro. Coloque o CD antes de usar a Ligação: é a partir dele que os eletrodutos são traçados.
Passo 4 — Distribuir tomadas e iluminação
Clique em Distribuir. A ferramenta percorre cada cômodo e aplica as regras que vimos no início: um ponto de luz no teto com a carga mínima pela área, a quantidade de tomadas pelo perímetro (a cada 5 m em salas e dormitórios, a cada 3,5 m em cozinhas e áreas de serviço) e as potências de 600 VA ou 100 VA conforme o ambiente. As tomadas são espaçadas ao longo das paredes, desviando de portas e janelas.
A distribuição atende ao mínimo da norma — e a própria NBR 5410 lembra que o número de tomadas deve considerar os equipamentos que serão usados no local. Clique em qualquer tomada para abrir o Cadastro TUG e mudar potência, tipo (simples, dupla…), circuito ou observação. Para chuveiro, ar-condicionado e outros equipamentos acima de 10 A, acrescente uma TUE: ela gera o circuito independente que a norma pede.
Passo 5 — Ligar os pontos com eletrodutos
Com o CD posicionado, clique em Ligação. Os pontos elétricos são conectados às caixas octogonais e ao quadro, e o diâmetro de cada eletroduto é escolhido pela área ocupada pelos cabos, respeitando a taxa de ocupação da norma e os diâmetros mínimo e máximo das suas Configurações. Se preferir traçar algum trecho à mão, use o botão Eletroduto.
Clicando num eletroduto, o Cadastro Eletroduto mostra diâmetro comercial, comprimento, quantidade de cabos, área ocupada, método de instalação e quais circuitos passam por ele (fase, neutro e retorno).
Passo 6 — Conferir o quadro de cargas e os circuitos
O botão Cargas abre o Quadro de cargas: a tabela de circuitos (tipo, potência, corrente, tensão, fator de potência, comprimento, dispositivo de proteção, seção do condutor…) e, logo abaixo, as tabelas de cômodos, pontos elétricos e objetos elétricos. É a visão geral para conferir se tudo bate antes de exportar.
Cada circuito tem a janela de Dimensionamento dos circuitos, onde ficam os dados que definem o cabo e a proteção: corrente, fator de potência, comprimento, dispositivo de proteção, material do condutor e da isolação, tipo de rede, temperatura ambiente, circuitos agrupados e forma de agrupamento. A seção do condutor considera capacidade de condução de corrente, fatores de correção de temperatura e agrupamento, seção mínima e queda de tensão.
Quer testar com a sua planta? Envie um DXF no Teste Agora, sem cadastro, ou conheça os planos de projeto elétrico residencial.
Passo 7 — Exportar o projeto
Por fim, clique em Exportar. Na janela Preparar para impressão você escolhe o que entra no PDF — o desenho, a lista de materiais e os relatórios —, o formato da folha (A2, A3 ou A4), a escala do desenho, as margens e a espessura das linhas.
Checklist rápido da NBR 5410 para conferir no seu projeto
- Todo cômodo tem ponto de luz no teto comandado por interruptor?
- A quantidade de tomadas respeita o perímetro de cada cômodo?
- Cozinha, área de serviço e banheiro têm 600 VA nos três primeiros pontos?
- Iluminação e tomadas estão em circuitos separados (ou o circuito misto fica abaixo de 16 A)?
- Equipamentos acima de 10 A têm circuito próprio?
- As tomadas de cozinha e área de serviço têm circuito exclusivo?
- Áreas molhadas e externas estão protegidas por DR de 30 mA?
- Cabos de iluminação com pelo menos 1,5 mm² e de tomadas com pelo menos 2,5 mm²?
- A queda de tensão fica dentro do limite?
- O quadro tem espaço de reserva para ampliações?
Conclusão
A NBR 5410 não deixa muita margem para improviso em um projeto residencial: quantidade de pontos, potências mínimas, divisão de circuitos, proteção e seção dos condutores, tudo tem regra. A ferramenta de projetos elétricos do Amigo Eletricista aplica essas regras a partir da sua planta em DXF e deixa a parte repetitiva por conta do sistema, enquanto você revisa e ajusta o que precisa. O resultado é um projeto elétrico completo, com desenho, quadro de cargas, lista de materiais e relatórios, pronto para exportar.
Se quiser entender quanto esse tipo de projeto costuma custar, leia também Quanto custa um projeto elétrico residencial.
Referências
- ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 5410: Instalações elétricas de baixa tensão. Rio de Janeiro: ABNT, 2004.
Como citar este artigo (ABNT)